segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Toques de Cabeça

ATRAVESSAR FRONTEIRAS, COMO O NUNO GOMES

Por JMMA


Completar trinta e três anos tem os seus quês. Não quer dizer que seja pior do que fazer vinte e três, ou melhor do que quarenta e três. Mas trinta e três é diferente. Trinta e três tinha o Nazareno quando voltou as costas a isto. Há um lado perturbador nessa história, sim: retirado tão jovem, Cristo ainda assim foi capaz de deixar atrás de si o palmarés suficiente para que, dois mil anos depois seja considerado por muitos o mais extraordinário dos galácticos. Só que trinta e três anos há vinte séculos eram muito mais anos do que trinta e três anos hoje. E, além disso, o Nazareno pertence a outra modalidade. O Céu o trouxe, o Céu o levou.

Não é por causa de Cristo, não, que trinta e três tem os seus quês – é acima de tudo por causa do futebol. Trinta e três tem o Nuno Gomes e segundo diz hoje a imprensa, está a preparar o adeus. Quer dizer que um jogador entra em fim de carreira aos trinta e três anos. Ou seja, um futebolista que este ano esteja em fim de carreira é um futebolista nascido em 1976, o ano em que o Luis foi inaugurado.

O Eusébio marcava livres de trinta metros, o Futre até fazia fintas à bandeirola de canto, mas o Luis foi o maior craque da escola dele e está para nascer um sucessor digno desse título. Era só futebol: futebol na praia, futebol em casa jogado nos tapetes, futebol no rádio de pilhas colado a dois centímetros da orelha, futebol aos domingos na Praça da Maratona frente ao Estádio Nacional – futebol por todo o lado. E agora uma fronteira.

O Luis sabe da existência dessa fronteira pelo menos desde 1993, quando Rui Águas atinge o ocaso da carreira. Só que nesse remoto ano de 93, para o Luis, um ídolo de 33 anos tinha nascido em 1960, quase na Pré-História. E 2009, em 1993, era muito longe, longe de mais para se poder imaginar.

Sucede que hoje, um futebolista em fim de carreira, tal como o Nuno Gomes, é um futebolista nascido em 1976. Se até determinada idade olhamos para os jogadores como homens, a partir dos trinta e três (ou até antes) damos por nós a olhar para eles como rapazinhos. Ao pé dos nossos trinta e três, o Di Maria, o Fábio Coentrão, até David Luís apesar de grandão – são todos uns putos. O próprio Ronaldo não passa de um criançolas.

Mas nada disso importava por aí além se não fosse um pormenor. É que aos trinta e três anos, temos de nos render a uma evidência sem apelo: nenhum olheiro já nos descobrirá. E assim se aposenta o craque da carreira que não fez.

Proponho uma festa de despedida!

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